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A internet: o mundo interligado


Pensando no nível de desenvolvimento que as tecnologias da informação e comunicação alcançaram, sem dúvida pode-se afirmar que o ápice das transformações tecnológicas ocorridas foi o advento do computador. Para Lima “o computador tirou o ser humano da janela que foi colocado pela televisão, onde ele via os fatos acontecerem mas não podia intervir para um processo de participação e construção diária, em função de seus objetivos.” (2000, p.27). O autor diz que

Enquanto o automóvel representou uma extensão tecnológica das pernas do ser humano, o rádio e o telefone, uma extensão de seus ouvidos e a televisão, uma extensão de sua visão, o computador foi mais longe. Muito mais longe, pois planetarizou o cérebro humano, dando chance para que seu pensamento viaje pelo planeta, conecte-se com outros pensamentos, desenhe planos e estratégias de ação e construa o instrumental de que precisa para continuar sua trajetória de mudança no meio. (Idem).

Segundo Lima, a grande maioria das novas tecnologias inventada pelo homem é resultante de uma tecnologia básica que é o computador. Na visão do autor, o computador é o eixo-central das mudanças paradigmáticas que o mundo vivencia.

Na verdade, estamos assistindo à criação de tecnologias derivativas do computador, o qual está aumentando em progressão geométrica sua capacidade de expansão, nos levando a rever nossa concepção de meio ambiente e modificando substancialmente nosso relacionamento com nosso próprio processo evolutivo. (2000, p.10).

Essa capacidade do computador deve-se principalmente ao fato de ser o suporte básico para a internet. Com relação ao procedimento de transformações históricas, Lyon diz que “o processo se acelerou durante o século vinte à medida que primeiro o telégrafo, depois os telefones, o rádio, a TV e agora os computadores e as telecomunicações aparecem em rápida sucessão, facilitando tudo.” (2005, p.75).
Lima destaca que o computador tem papel fundamental no processo de análise dos fatores intervenientes da mudança “por sua capacidade de atuar como aglutinador de outros meios e de sua capacidade sinérgica de se fazer presente na grande maioria das novas invenções da segunda metade deste século.” (2000, p.16).
Conforme o autor, ao levar esta nova tecnologia para a sua residência, o homem “iniciou um processo irreversível de planetarização, tendo a sua disposição recursos cada vez mais sofisticados que vão se tornando gradualmente mais simples em termos de operacionalização.” (Idem, p.27).
Para Castells, a internet é a espinha dorsal da comunicação global, mediada por computadores, “é a rede que liga a maior parte das redes.” (1999, p.431). Na visão do autor, a internet é fundamental para se entender o atual momento histórico, pois “a Internet, em suas diversas encarnações e manifestações evolutivas, já é o meio de comunicação interativo universal, via computador, da Era da Informação.” (Idem, p.433).
Segundo ele, “a Internet tem tido um índice de penetração mais veloz do que qualquer outro meio de comunicação na história.” (Idem, p. 439). Com relação ao crescimento da Internet Takahashi cita que somente nos EUA a Internet atingiu 50 milhões de usuários em apenas quatro anos. Para atingir esse mesmo número de usuários o computador levou 16 anos, a televisão 13 e o rádio 38. (2002, p.20-21).
Devido a sua importância, a integração de vários modos de comunicação em rede interativa é, de acordo com Castells, uma transformação tecnológica de dimensões históricas, similares ao advento do alfabeto. Em suas palavras, “o surgimento de um novo sistema eletrônico de comunicação, caracterizado pelo alcance global, integração de todos os meios de comunicação e interatividade potencial, está mudando e mudará para sempre nossa cultura.” (1999, p.414).
A internet representa, para o autor, “a formação de um hipertexto e uma metalinguagem que, pela primeira vez na história, integra no mesmo sistema, as modalidades escrita, oral e audiovisual da comunicação humana.” Este acontecimento é da mais alta relevância, visto que “muda de forma fundamental o caráter da comunicação [...] E a comunicação, decididamente, molda a cultura”. (Idem). Ainda falando sobre a relação entre comunicação e cultura, Castells afirma que

Como a cultura é medida e determinada pela comunicação, as próprias culturas, isto é, nossos sistemas de crenças e códigos historicamente produzidos são transformados de maneira fundamental pelo novo sistema tecnológico e o serão ainda mais com o passar do tempo. (Idem).

Lima acredita que a mais importante contribuição da tecnologia computacional é a possibilidade de conectividade. Ele diz que, através da internet, existe “a possibilidade de nos comunicarmos de forma multidirecional com quaisquer partes do planeta, trocando dados e acessando informações de forma interativa, criando, de forma concreta, a aldeia global.” (2000, p.29). Ao abordar a questão da conectividade, Lyon ressalta que “onde antes havia muitos pequenos ‘mundos’, hoje existe apenas um.” (2005, p.75).
A internet é uma rede de redes. A rede mais conhecida e utilizada é a WWW (World Wide Web). Através dela, textos, imagens, sons, vídeos, animações e os mais variados recursos multimídia se combinam, formando hipertextos que interligam milhares de documentos através de links. A WWW propiciou uma verdadeira revolução na comunicação global. De acordo com Castells

A coexistência pacífica de vários interesses e culturas na Rede tomou a forma da World Wide Web – WWW (Rede de Alcance Mundial), uma rede flexível formadas por redes dentro da Internet onde instituições, empresas, associações e pessoas físicas criam os próprios sítios (sites), que servem de base para que todos os indivíduos com acesso possam produzir sua homepage, feita de colagens variadas de textos e imagens. (1999, p.439-440).

Falando sobre a importância da internet, Lima diz que a WWW representa “um marco e um divisor de águas no processo de mudança paradigmática, ficando evidente que o acesso e o manuseio da informação em termos globais se organizam em fases caracterizadas por antes e depois da existência da WEB.” (2000, p.29).
Para Lima, navegar na WEB é o primeiro grande passo de nossa sociedade rumo à consolidação do novo paradigma. Nas palavras do autor

Isto ocorre porque a WEB muda por completo nossa relação com a informação ou conhecimento. Não só no que tange ao envio e recepção da mesma, como também modifica o conceito enraizado em nossa sociedade de que informação representa uma forma de controle e poder. (2000, p.31).

Através da internet, as redes se ligam entre si formando uma teia. Embora não fisicamente, as novas mídias aproximam as pessoas de maneira rápida, fazendo com que as fronteiras geográficas não tenham mais tanta importância. Essa idéia não é recente. Há mais de 40 anos, o comunicólogo e filósofo canadense Marshall McLuhan já havia proclamado essa mudança paradigmática na forma de o ser humano se relacionar com a tecnologia. Tendo como base os avanços tecnológicos, ele considerava que a humanidade caminhava rumo a uma “aldeia global”, onde seria possível transportar o mundo para a própria residência e onde o globo se transformaria numa pequena aldeia, na qual todos se relacionam com todos de maneira democrática. Suas idéias ficam evidentes ao analisar o impacto da internet e suas conseqüências no meio. Assim, a internet, e não a televisão como ele inicialmente imaginava, é a responsável pela conectividade do mundo e por transformar o planeta em uma “aldeia”.
Castells acredita que a visão de McLuhan não é suficientemente abrangente para denominar e caracterizar o atual contexto comunicacional.

Embora a audiência recebesse matéria-prima cada vez mais diversa para cada pessoa construir sua imagem do universo, a Galáxia de McLuhan era um mundo de comunicação de mão única, não de interação. Era, e ainda é, a extensão da produção em massa, da lógica industrial para o reino dos sinais e, apesar do gênio de McLuhan, não expressa a cultura da era da informação. (1999, p. 427).

Abordando as redes de comunicação mediada por computadores, Castells afirma que “diferentemente da mídia de massa da Galáxia de McLuhan, elas têm propriedades de interatividade e individualização tecnológica e culturalmente embutidas.” (Idem, p.442).
A tecnologia está em constante aprimoramento. De acordo com Castells “as pessoas moldam a tecnologia para adaptá-la as suas necessidades.” (Idem, p.449). Dessa forma, cada grupo social usa a tecnologia de acordo com suas intenções. Para o autor, a forma de comunicação eletrônica multipessoal, que é representada pelos modos de comunicação mediada por computadores, “tem sido usado de formas diferentes e para diferentes finalidades, tantas quantas existem no âmbito da variação social e contextual entre seus usuários” (Idem). Ele ressalta ainda que “o denominador comum da CMC é que [...] ela não substitui outros meios de comunicação, nem cria novas redes: reforça os padrões sociais preexistentes.” (Idem).
A partir da fusão da mídia de massa personalizada e globalizada com a comunicação mediada por computadores, surgiu, na segunda metade da década de 1990, um novo sistema de comunicação eletrônica. Conforme Castells, “o novo sistema é caracterizado pela integração de diferentes veículos de comunicação e seu potencial interativo. Multimídia, como o novo sistema logo foi chamado, estende o âmbito da comunicação eletrônica para todo o domínio da vida.” (Idem, p.450). Para o autor, a peculiaridade da nova mídia é que “os novos meios de comunicação eletrônica não divergem das culturas tradicionais: absorvem-nas.” (Idem, p.456).
De acordo com Castells a multimídia apresenta as seguintes características: 1) grande diferença social e cultural dos usuários, o que leva à segmentação dos públicos; 2) a multimídia fica restrita às pessoas com tempo e dinheiro e as diferenças sociais e culturais são fundamentais no uso do novo meio; 3) todos os tipos de mensagens, difundidos no mesmo meio, induzem a um padrão cognitivo comum, 4) é capaz de apreender, em toda sua diversidade, a maioria das expressões culturais, pois todas as manifestações vêm juntas no mesmo ambiente digital.
Esse último item é considerado pelo autor como um dos mais importantes. Em suas palavras, o advento da comunicação multimídia “é equivalente ao fim da separação e até da distinção entre mídia audiovisual e mídia impressa, cultura popular e cultura erudita, entretenimento e informação, educação e persuasão.” (Idem, p.458). Ele diz ainda que

O que caracteriza o novo sistema de comunicação, baseada na integração em rede digitalizada de múltiplos modos de comunicação, é sua capacidade de inclusão e abrangência de todas as expressões culturais. Em razão de sua existência, todas as espécies de mensagens do novo tipo de sociedade funcionam em um modo binário: presença/ausência no sistema multimídia de comunicação. Só a presença nesse sistema integrado permite a comunicabilidade e a socialização da mensagem. (1999, p. 460-461).

Ao referir-se ao mundo interligado pela internet, Pierre Lévy fala em ciberespaço, definindo-o como o “espaço de comunicação aberto pela interconexão mundial dos computadores e das memórias dos computadores.” (2000, p.92, grifo do autor). Dessa maneira, o computador deixa de ser um centro para tornar-se um nó conectado com a rede. Como afirma o filósofo, este é “o terreno onde está funcionando a humanidade hoje.” (2000, p.13).
Lévy afirma que o ciberespaço se difere da mídia tradicional “porque é nesse espaço que todas as mensagens se tornam interativas, ganham uma plasticidade e têm uma possibilidade de metamorfose imediata.” (Idem). Características suficientes para transformar as culturas humanas em uma cibercultura. Definição que refere-se à cultura digital e que designa a formação de uma única comunidade mundial, mesmo sendo essa comunidade formada por indivíduos desiguais e conflitantes.
As bases das revoluções vividas anteriormente pelas sociedades voltadas à indústria foram a energia e a matéria. Já o atual período histórico exige que o ser humano mude sua compreensão de tempo e espaço, sendo esses “as principais dimensões materiais da vida humana.” (CASTELLS, 1999, p.467). Dessa maneira, “tanto o espaço quanto o tempo estão sendo transformados sob o efeito combinado do paradigma da tecnologia da informação e das formas e processos sociais, induzidos pelo processo atual de transformação histórica.” (Idem).

[...] o novo sistema de comunicação transforma radicalmente o espaço e o tempo, as dimensões fundamentais da vida humana. Localidades ficam despojadas de sentido cultural, histórico e geográfico e reintegram-se em redes funcionais ou em colagens de imagens, ocasionando um espaço de fluxos que substitui o espaço de lugares. O tempo é apagado do novo sistema de comunicação, já que passado, presente e futuro podem ser programados para interagir entre si na mesma mensagem. O espaço de fluxos e o tempo intemporal são as bases principais de uma nova cultura, que transcende e inclui a diversidade dos sistemas de representação historicamente transmitidos: a cultura da virtualidade real, onde o faz-de-conta vai se tornando realidade. (Idem, p.462, grifo do autor).

Diante do avanço tão significativo da tecnologia, que conseqüentemente acaba gerando mudanças na sociedade, existem duas formas de o sujeito se manifestar a respeito: ou ele é apocalíptico, ou é integrado. Essas denominações tornaram-se tradicionais com Umberto Eco. Assim, os apocalípticos são os pessimistas em relação às novas tecnologias, enquanto que os integrados são os otimistas. Porém, para Jorge (1998) , essas duas visões partem de premissas duvidosas e errôneas.
Os pessimistas condenam os efeitos danosos dos meios de comunicação de massa diante de seu público e uma de suas falas mais constantes diz respeito à imagem. Eles acreditam que “a imagem, em seus vários suportes (cinema, vídeo, computador) se transforma, deixando de ser reprodução do real para virar simulacro do real.” (JORGE, 1998, p.28). Para Jorge essa premissa é apenas parcialmente correta, pois “vai depender do caráter sígnico que essa imagem mantém com o objeto que ela representa” (Idem). O autor defende que “não há imagem universal que seja compreendida por todos do mesmo modo.” (Idem).
Sobre a impressão de que a imagem é mais importante e, atualmente, mais utilizada do que a palavra, Jorge pontua que as imagens precisam da sustentação verbal para que não ocorra a ambigüidade. Ele diz que ”o texto explica mais e melhor do que as imagens.” (Idem). E esse é o motivo de, na internet, haver mais textos do que ilustrações.
Já para os integrados, que defendem a idéia da “aldeia global”, Jorge argumenta dizendo que “também o texto está sujeito a diferentes interpretações.” (Idem, p.30). Assim, “todo enunciado pode ser considerado, inicialmente, em sua literalidade, mas não é obrigado a ser considerado apenas em seu sentido literal.” (Idem, grifo do autor). O mesmo acontece com os produtos culturais, “toda cultura produz estereótipos dos sujeitos pertencentes a outras culturas, e esses estereótipos também são reduções, simplificações ou ainda interpretações.” (Idem). Ou seja, na visão de Jorge, o conceito de aldeia global “é uma ficção e, dificilmente será uma realidade total.” (Idem).
Seja qual for a linha de raciocínio, é fundamental reconhecer as mudanças sociais ocorridas a partir do avanço das tecnologias de informação e comunicação, que caracterizam o atual momento histórico/econômico/cultural que a humanidade vivencia. Essas transformações são tão profundas e significativas que tornou-se consenso entre os diversos autores proclamar que o mundo está em uma nova era. A este início de uma nova ordem convencionou-se chamar de Sociedade da Informação.
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REFERÊNCIAS
LIMA, Frederico O. A sociedade digital: o impacto da tecnologia na sociedade, na cultura, na educação e nas organizações. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2000. 152 p.
LYON, David. Pós-modernidade. São Paulo: Paulus, 2005. 131p.
TAKAHASHI, Tadao. Sociedade da Informação. In: PERUZZO, Cecília, BRITTES, Juçara (Org). Sociedade da Informação e Novas Mídias: participação ou exclusão?. São Paulo: INTERCOM, 2002. 139 p.
LÉVY, Pierre. Cibercultura. 2.ed. São Paulo: Ed. 34 Ltda. 2000. 264p.
JORGE, Ricardo. Olhar midiático. Revista de Comunicação e Informação da UFC, n1, 1998.

E tudo mudou... a mídia também


Até chegar ao presente momento da história, a humanidade passou por diversos progressos que, em cada época, marcaram definitivamente as sociedades dentro do seu contexto. Cada avanço que os homens davam na direção de seu desenvolvimento foi indiscutivelmente importantes para o sucesso dos avanços posteriores.
Analisando-se a história da humanidade e as principais transformações ocorridas ao longo desse período, percebe-se que todos os grandes avanços humanos tiveram como base a capacidade de comunicação. A comunicação fornece os meios necessários para que as transformações ocorram. Assim, pode-se dizer que ela teve papel fundamental nas mudanças históricas.
O homem tornou-se um ser social a partir do instante em que conseguiu estabelecer linguagens lógicas. Nesse sentido, o primeiro grande marco da história da humanidade foi o surgimento da escrita (4 mil a.C.). Nas sociedades primitivas, há milhares de anos atrás, a comunicação limitava-se à linguagem oral. A escrita tornou-se a forma mais sofisticada de comunicação e serviu como alicerce para as invenções seguintes, além de permitir deixar, para as próximas gerações, os conhecimentos adquiridos.
A escrita teve como base o alfabeto. “Por volta do ano 700 a.C. ocorreu um importante invento na Grécia: o alfabeto.” (CASTELLS, 1999, p.413). Ele constitui a base para o desenvolvimento da filosofia ocidental e da ciência e “no ocidente proporcionou a infra-estrutura mental para a comunicação cumulativa, baseada em conhecimento.” (Idem). De acordo com Castells, esta invenção “tornou possível o preenchimento da lacuna entre o discurso oral e o escrito.” (Idem).
Esse momento histórico foi preparado ao longo de aproximadamente 3 mil anos de evolução da comunicação oral e não-alfabética.
Após a escrita, o destaque foi o invento do papel, por volta de 105 d.C. pelos chineses, que serviu de suporte para o posterior advento da imprensa. Outro marco histórico foi em 1448, com a criação da impressora pelo alemão Johannes Gutenberg, o que o transformou em um dos mais importantes personagens da história do segundo milênio. A possibilidade de impressão em larga escala democratizou a comunicação. Até então, a possibilidade de se obter um livro era praticamente inexistente. Os livros eram manuscritos e se restringiam às bibliotecas dos mosteiros. Com a impressora, os escritos deixaram de ser artesanais e passaram a ser produzidos em larga escala. O invento de Gutenberg estimulou a busca pelo conhecimento e aumentou o número de pessoas alfabetizadas. A reprodução das informações em larga escala é a base da comunicação de massa.
Ainda, segundo Castells, a alfabetização só se difundiu após a difusão da imprensa de massa. A mesma opinião é manifestada por Lyon. “O desenvolvimento da escrita fez com que as gerações precedentes estabelecessem relações em grande escala, o que foi ampliado, e muito, pela imprensa.” (2005, p.75).
A imprensa escrita foi, por muitos anos, a principal forma de comunicação, mas tinha como barreira o analfabetismo, o alto custo e o tempo, pois a mensagem demorava até chegar ao receptor. Assim o homem precisava desenvolver uma mídia que vencesse essas limitações.
Foi assim que surgiu um novo marco na história da comunicação: o rádio. Ele permitiu que a mesma mensagem chegasse instantaneamente para várias pessoas. Como sua forma de transmissão e recepção necessitava apenas de uma estação emissora e aparelhos de recebimento, a mensagem podia chegar facilmente às pessoas, inicialmente em suas casas e, logo mais, com o surgimento de aparelhos portáteis, a qualquer parte a que esse aparelho fosse levado.
Mas, sem dúvida, um dos fatos mais significativos foi a criação da televisão. “O que a TV representou, antes de tudo, foi o fim da Galáxia de Gutenberg, ou seja, de um sistema de comunicação essencialmente dominado pela mente tipográfica e pela ordem do alfabeto fonético.” (CASTELLS, 1999, p.417).
Sobre a importância da televisão, Castells afirma que “é a presença de fundo quase constante, o tecido de nossas vidas [...] Vivemos com a mídia e pela mídia.” (Idem, p.419). O autor ressalta que o consumo da mídia chega a ser a segunda maior categoria de atividade humana depois do trabalho, e é atividade predominante nas casas. Com relação à TV, ele cita dois pontos fundamentais:
[...] alguns anos após seu desenvolvimento a televisão tornou-se o epicentro cultual de nossas sociedades; e a modalidade de comunicação da televisão é um meio fundamentalmente novo caracterizado pela sua sedução, estimulação sensorial da realidade e fácil comunicabilidade, na linha do modelo do menor esforço psicológico.(1999, p.418).

Para Castells, a mídia é o elemento-chave da sociedade contemporânea. Ele diz que “a mídia é a expressão de nossa cultura, e nossa cultura funciona principalmente por intermédio dos materiais propiciados pela mídia.” (1999, p.422). Mesmo com toda essa importância, ele reconhece que as audiências não são tão passivas como se supunha anteriormente. Foi principalmente a partir dos anos 80, com a multiplicação dos canais do TV, que o público demonstrou o seu poder. A TV começa a se diversificar e a audiência escolhe seus programas, tornando-se mais seletiva. A mídia passou a focar um público específico, individualizado.
Na década de 90 ocorreu outro avanço, o desenvolvimento da TV a cabo. Aumentou-se o número de canais à disposição dos telespectadores e segmentaram-se ainda mais os públicos. Mas a principal característica, conforme Castells, é o fim da audiência de massa. Embora maciça em número de espectadores, não é mais um meio de massa em termos de simultaneidade e uniformidade da mensagem recebida.
Já no início do século XXI a televisão atinge o ápice de seu avanço chegando em formato digital. Traz como vantagens a possibilidade de interação, além de melhoria na qualidade de som e imagem. No Brasil, a televisão digital foi inaugurada no dia 02 de dezembro de 2007 na cidade de São Paulo, mas a estimativa é que demore até 10 anos para se popularizar.
Assim, o surgimento e desenvolvimento dos veículos de comunicação foi (e continua sendo) conseqüência dos períodos culturais vividos pela humanidade durante sua trajetória histórica. A esse respeito, Santaella (2004) indica a formação de seis eras culturais:

Cultural oral: Período da oralidade, surgimento da fala.

Cultura escrita: Atribuição de significados a desenhos.

Cultura impressa: Impressão de escritos em larga escala. Várias cópias de um mesmo documento. Até então os registros eram feitos de forma artesanal. Grande diferença social entre nobreza e massas.

Cultura de massas: Período relativo à difusão, em grande escala, dos meios de reprodução tecnológicos, como fotografia, cinema e rádio. Mas foi principalmente com a televisão que o conceito de cultura das massas se solidificou. Consumo massivo de informações possibilitada pelos veículos de comunicação. A audiência apenas recebe informações. Não há interação. As diferenças entre cultura erudita e de massa começam a ficar tênues.

Cultura das mídias: Caracterizada pelo surgimento de equipamentos que possibilitaram um consumo individualizado, como fax, xerox, fita cassete, aparelhos portáteis de som, TV a cabo, revistas e rádios segmentados. Apesar de visar públicos específicos, usava as mesmas dinâmicas vigentes na cultura de massas.

Cultura digital: Denominada de cibercultura, surge com a popularização de computadores pessoais com acesso à internet. Os espectadores também são usuários. Interação com a máquina. Cultura da velocidade. Criação de hiper-redes multimídia de comunicação interpessoal. Convergência de todas as mídias no formato digital.

REFERÊNCIAS
CASTELLS, Manuel. A era da informação: economia, sociedade e cultura. 10.ed. rev. e ampl. São Paulo, SP: Paz e Terra, 2006. 1 v. 698p.
LYON, David. Pós-modernidade. São Paulo: Paulus, 2005. 131p.
SANTAELLA, Lucia. Culturas e artes do pós-humano: da cultura das mídias à cibercultura. São Paulo: Paulus. 2003. 357 p.

O mundo em transformação


A humanidade está passando por um momento singular de sua história. Evidencia-se uma nova era, onde a ruptura com os antigos paradigmas está causando grandes impactos na sociedade. O mundo vivencia processos de mudanças que ocorrem em ritmo cada vez mais acelerado. Estas mudanças transformam o dia-a-dia das pessoas em todas as esferas, seja no trabalho, educação, lazer, acesso à informação, etc. A globalização, o rápido avanço da tecnologia, o advento do computador, do celular, e principalmente a internet mudaram radicalmente, e para sempre, a vida humana.

Nos últimos 50 anos, a sociedade evoluiu mais do que em todos os séculos anteriores em termos de tecnologia de informação e comunicação. De acordo com Castells. No fim do segundo milênio da Era Cristã, vários acontecimentos de importância histórica transformaram o cenário social da vida humana. Uma revolução tecnológica concentrada nas tecnologias da informação começou a remodelar a base material da sociedade em ritmo acelerado. (1999, p.39).


Na visão de Castells, “a vida é uma série de situações estáveis, pontuadas em intervalos raros por eventos importantes que ocorrem com grande rapidez e ajudam a estabelecer a próxima era estável.” (1999, p.67). Nesse sentido é correto dizer que o momento atual sugere uma nova era, já que no final do século XX verificou-se um desses raros intervalos na história. “Um intervalo cuja característica é a transformação de nossa ‘cultura material’ pelos mecanismos de um novo paradigma tecnológico que se organiza em torno da tecnologia da informação.” (Idem). As mudanças advindas desde então induzem um padrão de descontinuidade nas bases materiais da economia, da sociedade e da cultura.
Diferente de outras revoluções que marcaram a história da humanidade, como a Revolução Industrial do século XVIII, “o cerne da transformação que estamos vivendo na revolução atual refere-se às tecnologias de informação, processamento e comunicação.” (Idem, p.68, grifo do autor). O autor compara a importância da tecnologia da informação desta revolução com as novas fontes de energia da revolução industrial.
Segundo Lima, o atual processo de contínuas transformações obriga os indivíduos a repensarem suas relações com a própria realidade. “Nossa forma de conhecer, aprender e atuar no meio ambiente está sofrendo drásticas transformações, nos obrigando a repensar o nosso modus operandi e a forma que decodificamos as informações que recebemos em nossas relações com o meio.” (2000, p.1). Ele acredita que o ser humano precisa aceitar e se adequar à nova era que está em constante mudança.

É, sem sombra de dúvidas, um mundo diferente este em que estamos vivendo. Abandonamos um status quo conhecido e enveredamos em um novo território sem bússola e sem saber ao certo para onde estamos indo e quando vamos chegar. A única certeza que temos é que a mudança será parte integrante de nosso dia-a-dia e que teremos que aceitar esta realidade fragmentada em que não existe mais a grande imagem para nos guiar. (Idem, p.4).

Ainda de acordo com o mesmo autor, as transformações da nova sociedade ocorrem em escala exponencial, fazendo com que os saberes de poucos anos atrás se tornem descartáveis. “Vivemos tempos em que um conhecimento de 10 anos atrás pode ser considerado arqueológico, tal a distância entre o mesmo e as acelerações de mudanças em nossa sociedade.” (Idem, p.7). As mudanças que vêm ocorrendo nas últimas décadas são tão constantes que fica praticamente impossível fazer previsões. “A nova sociedade se redesenha diariamente (...) fazendo com que não possamos mais definir, a priori, as tendências de nossa evolução.” (Idem, p.11, grifo do autor).
Lima diz que, devido à simultaneidade dos fenômenos atuais e a intensificação das mudanças, o mundo passa da evolução linear para uma re-evolução contínua. Antes, as mudanças aconteciam em proporções menores e levava certo período entre uma transformação e outra, o que permitia tempo para as pessoas se adaptarem. O mesmo não acontece na esfera atual.

Com a compressão do intervalo entre cada invenção, já não existe tempo hábil para que possamos esperar que o ambiente social possa “digerir” o novo e “acomodar” a tecnologia e o conhecimento que chegam na sociedade, minimizando ou suavizando seu impacto por fazer uso do tempo como elemento amortecedor da mudança. (Idem, p.13).

A mesma opinião é expressa por Dizard, que afirma que

A atual transição para um ambiente de nova mídia difere das experiências passadas, quando as tecnologias surgiam lentamente. A introdução de formas de antigas tecnologias de mídia como o jornal impresso, o rádio e a TV foi mais disciplinada. Um tempo suficiente se passava entre uma e a próxima, permitindo separar as conseqüências econômicas e sociais das mudanças. Entretanto, agora, a mídia deve lidar com a convergência de muitas tecnologias novas, que estão chegando velozmente e com uma urgência que nos dá pouco tempo para avaliar a maneira como elas podem melhor se adaptar a um padrão já complexo de mídia.
(2000, p.225).

Lyon denomina a atual esfera social de pós-modernidade. Para ele, este termo “se refere, acima de tudo, ao esgotamento da modernidade.” (2005, p.16). Muitos são os nomes dados por autores para explicar o novo contexto vivido pela humanidade. O que todos concordam é que a nova realidade começou a emergir devido ao rápido avanço das tecnologias de informação e comunicação. Para Castells “a tecnologia é a sociedade, e a sociedade não pode ser entendida ou representada sem suas ferramentas tecnológicas.” (1999, p.43, grifo do autor). Ele diz ainda que:
[...] logo que se propagaram e foram apropriadas por diferentes países, várias culturas, organizações diversas e diferentes objetivos, as tecnologias da informação explodiram em todos os tipos de aplicações e usos que, por sua vez, produziram inovação tecnológica acelerando a velocidade e ampliando o escopo das transformações tecnológicas bem como diversificando suas fontes. (Idem,
p.43-44).

Nesse sentido, é possível dizer que as tecnologias traçam o destino das sociedades, pois incorporam a sua capacidade de transformação. As ferramentas tecnológicas que a sociedade dispõe, ou não, irão marcar definitivamente suas características e sua possibilidade, ou não, de realizar certas atividades sociais, influindo diretamente na sua cultura.

Sem dúvida, a habilidade ou inabilidade de as sociedades dominarem a tecnologia e, em especial aquelas tecnologias que são estrategicamente decisivas em cada período histórico, traça seu destino a ponto de podermos dizer que, embora não determine a evolução histórica e a transformação social, a tecnologia (ou sua falta) incorpora a capacidade de transformação das sociedades, bem como os usos que as sociedades, sempre em um processo conflituoso, decidem dar ao seu potencial tecnológico. (Idem, p.44-45).

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REFERÊNCIAS

CASTELLS, Manuel. A era da informação: economia, sociedade e cultura. 10.ed. rev. e ampl. São Paulo, SP: Paz e Terra, 2006. 1 v. 698p.

LIMA, Edvaldo Pereira. Páginas ampliadas: o livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura. 3.ed. Barueri, SP: Manole, 2004. 371 p.

DIZARD, Wilson P. A nova mídia: a comunicação de massa na era da informação. 2.ed. rev. e atual. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2000. 324 p.

LYON, David. Pós-modernidade. São Paulo: Paulus, 2005. 131p.